Jun 15, 2011
O barulho da chuva no telhado de vidro do Real Gabinete Português de Leitura, bom durante as pesquisas, pior na hora de fechar, quando os funcionários estendem infinitas cobertas de plástico sobre o velho balcão maciço que já ninguém usa, sobre as mesinhas estreitas e pouco cómodas, e que a gente tem de sair. Pela porta aberta vê-se a rua molhada, o trânsito irritadiço das metropoles ao fim do dia.
A rua é rua de sebos. O primeiro me dá guarrida. Deus! Uma estante inteira de dicionários! O Font-Quer das minhas cobiças, mas numa edição porca dos anos oitenta, as suas tão precisas gravuras borradas.
Me ajoelho para as estantes rasteiras. Mais um dicionário de Botánica? Editado em Lisboa pelas Tertúlias Edípicas? Edípicas? Que têm por simbolo a esfinge, a egípcia? Abro, claro, e... quase um ano de trabalho se desmorona. Caquinhos no chão, e lá fora a chuva.
Enfim, ganhei uma esfinge, hão-de se abrir outros caminhos...
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Jun 13, 2011
Dia dos namorados na Ataúlfo de Paiva
Desparaísado ainda não quer dizer infernizado. Até há um bom caminho de um para outro, e se cruza lá de tudo, meio-mundo. Um rapaz bem acompanhado, por exemplo, baloiçando uma cesta de gerberas, na nuca uma tatuagem : LOVED.
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Jun 12, 2011
chez soi
home is wherever you know where to find the light switch when you get there in the wee hours.
Jun 11, 2011
O amor da morena maldita do Largo do Estácio
"Se alguém quer matar-me de amor
que me mate no Estácio..."
canta Luiz Melodia.
Ontem fui. Ao Estácio. Nunca se sabe.
À caminho,
passei pelas ruinas do Sambodromo
e aprendi que o Rio até se parece com Shanghai.
No Estácio, não havia amor. Comprei paçoca que comi no metrô.
que me mate no Estácio..."
canta Luiz Melodia.
Ontem fui. Ao Estácio. Nunca se sabe.
À caminho,
passei pelas ruinas do Sambodromo
e aprendi que o Rio até se parece com Shanghai.
No Estácio, não havia amor. Comprei paçoca que comi no metrô.
Jun 10, 2011
on this black and white day
a lady with a spoon in her rear pocket taught me
that you can eat
everything birds eat
but that some of what monkeys eat can kill you.
(this could come handy in a hungry forest)
later I found a dagger in the heart of a tree
a tiny sinowy tree and
a very sharp dagger.
I thought of the knife-thrower's assistant.
later still, night brought color, dark
a lady with a spoon in her rear pocket taught me
that you can eat
everything birds eat
but that some of what monkeys eat can kill you.
(this could come handy in a hungry forest)
later I found a dagger in the heart of a tree
a tiny sinowy tree and
a very sharp dagger.
I thought of the knife-thrower's assistant.
later still, night brought color, dark
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Jun 9, 2011
Jun 7, 2011
414
hier mon premier
"La fleur que j’aime? – La sienne- et après, toutes." MP
"What is your favorite flower? - Two lips in the dark. " Dzvinia Orlowsky
"Que pode uma boca esperar senão outra boca? Eugénio de Andrade
"What is your favorite flower? - Two lips in the dark. " Dzvinia Orlowsky
"Que pode uma boca esperar senão outra boca? Eugénio de Andrade
Jun 2, 2011
labyrinthe de passion distraite
Comment veux-tu que je ne me perde pas, si à côté de ce que je cherche, se trouve ce que je ne cherche pas...
par exemple dans le bulletin de Muséum d'Histoire Naturelle tome XX 1914
État cataleptique chez un jeune crocodilus niloticus Linné
par Mme Phisalix
Un jeune Crocodile (mâle, du poids de 600 grammes, et mesurant 53 centimètres) provenant de l'Oubanghi, entré à la Ménagerie des reptiles du Muséum le 20 mars 1912, et resté normal jusqu'aux premiers jours de janvier 1914, a présenté à ce moment des troubles nerveux, accompagnés de perte de connaissance, qui ont pu momentanément faire croire à la mort subite du sujet.
Les excitations les plus faibles : un mouvement, un bruit léger, un souffle, le geste seul de saisir l'animal suffisaient et réussissaient toujours à provoquer une crise, alors que rien de semblable ne se produisait avec les quatre autres crocodiles de même taille habitant la même cage.
Caractères de la crise : celle-ci se déroule en trois phases, se succédant toujours dans le même ordre:
1º au début, le sujet répond à chaque excitation par un petit cri bref, et un brusque mouvement latéral de la tête, bouche ouverte tournée vers l'observateur. Il semble figé dans cette attitude, mais on peut déterminer la fermeture de la bouche en frôlant, au moyen d'un pinceau, soit le bord des lèvres soit le fond du gosier. En même temps se produisent de petites secousses cloniques de la tête, la paupière supérieure clignote, et la membrane nyctante se rabat sur le globe de l'oeil.
cette phase dure de 45 à 60 secondes
2º Une phase tonique lui succède, où l'animal se raidit un peu; s'il repose sur la face ventrale, la région moyenne du corps se soulève en arc, le menton et la queue reposant sur le sol, le membres étant en demi-extension. L'animal mis sur le dos conserve son attitude en arc et ne touche plus le sol que par une petite surface. (...)
cette phase cataleptique dure de 2 à 5 minutes, mais on peut la prolonger en répétant l'excitation initiale, qui n'a d'ailleurs pas d'autre effet. etc.
Charcot dans l'étang des herpétologues.
Ou alors
![]() |
| toujours on peut cliquer |
dans La vie des insectes, de JH Fabre, enthomologiste en famille, l'illustration de ses excavations à la recherche des nids de minotaure tychée... Dans le trou son fils Paul, "qui lui prête la souplesse de ses reins" à droite sa femme, dont "les yeux ne sont pas de trop" et sous l'époustouflant chapeau à antennes cabbalistiques, malheur, je ne sais pas. Sa fille Paquerette.
![]() |
| albert eckhout, c.1640 |
where my body where my brain
![]() |
| "my" table at the library of the Jardim Botânico do Rio de Janeiro
And then, when you read about what these trees
were (and are) felled for, it's concrete-casing or fence-posts. |
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Martius, viagem no Brasil
ontem sonhei com uma floresta onde os intervalos entre troncos tinham sentido, tinham leitura.
passear era perceber.
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Jun 1, 2011
jardim botánico
as imensas corolas de aristolochia gigantea caem moles no chão como os panos sujos dum bordel vegetal (passa um bando de freiras)
entrando na lanchonete debaixo das árvores faço o sucesso da minha vida: uma turma inteira de adolescentes bonitões sentados num banco corrido vira a cabeça para me ver passar. Não todos ao mesmo tempo, mas um depois do outro, nuca rapada vira perfil curioso, parece coreografia, parece music-hall. O que admiram são as minhas calças de palhaço.
Cinco americanas grávidas acompanhadas por 5 crianças quase bébés falam dos empregos dos maridos, enquanto 8 moscas-vespas de ar perigoso cruzam em volta da minha água.
O gato da casa, normal-as-riscas apesar da morada exótica instala-se no meu colo com hábito milenário. E agora que faço? Cheira absurdamente ao café grego da Lilli.
entrando na lanchonete debaixo das árvores faço o sucesso da minha vida: uma turma inteira de adolescentes bonitões sentados num banco corrido vira a cabeça para me ver passar. Não todos ao mesmo tempo, mas um depois do outro, nuca rapada vira perfil curioso, parece coreografia, parece music-hall. O que admiram são as minhas calças de palhaço.
Cinco americanas grávidas acompanhadas por 5 crianças quase bébés falam dos empregos dos maridos, enquanto 8 moscas-vespas de ar perigoso cruzam em volta da minha água.
O gato da casa, normal-as-riscas apesar da morada exótica instala-se no meu colo com hábito milenário. E agora que faço? Cheira absurdamente ao café grego da Lilli.
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May 29, 2011
cinema suiço no rio (fim)
o cineasta de hoje comparado ao do cinema novo (nos dois paises) :
"... é mais espectador do mundo do que mudador de mundo... Le désenchantement exacerbe l'individualisme... Notre monde, tout est marchandise et communication. Difficile de trouver des personnages qui cristallisent cette réalité...
Moins de générosité dans le geste... "
(tudo organizado pela Ana Alice e a produtora 3moinhos, eficacidade e gentileza. merci merci)
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May 27, 2011
cinema suiço no rio
sítio mais inesperado. Frederic Mermoud fala do groupe des cinq. pouca assistência mas atenta. bulle ogier bideau françois simon caras corpos dum antigamente do qual quase que partilho. quase. uma espécie de inocência ( vista de hoje) da qual é difícil não ter inveja.
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May 26, 2011
largo do carioca
Pieds nus dans des ordures sans nom, le corps humilié depuis si longtemps qu'il en a acquis une espèce d'orgueil, il sent l'orange. Très fort.
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Lost in translation? Perdição paralela.
Para botánico, a eternidade pode estar em dar o nome a uma flor. Árvore, erva, musginho, tanto faz. Mais, melhor.
O fim da eternidade, esse, abrupto, pode vir por meio suave: tantos herborizando, dois deram o nome à mesma planta. Um tempo, os dois existem paralelos. Nascem mal-entendidos, a comunidade escolhe um. O outro? O outro cai em sinonimia.
May 25, 2011
going under, feeling nothing
The plane takes maybe 200 people. Each of us has a personal screen.
An average movie lasts 100 minutes, the oversea flight last 10 hours, that's 6 movies worth of flying.
Two people are working, and two more reading. This is not a night-flight.
Jet-flight almost abolishes distance. Cinema, paradoxically, abolishes movement by giving us an inner sense of it.
The beautiful and dangerous manipulative power of film, here very obviously stripped down to one of its bare truth:
an anesthesic. so powerful it's scary. Even sleep looks like a more lively occupation then this overdose of entertainment.
We could be going under in flames, as long as there is a movie to watch, who cares.
Actually we are going under in flames, and there are movies to watch.
is it possible to escape the anesthesy effect?
An average movie lasts 100 minutes, the oversea flight last 10 hours, that's 6 movies worth of flying.
Two people are working, and two more reading. This is not a night-flight.
Jet-flight almost abolishes distance. Cinema, paradoxically, abolishes movement by giving us an inner sense of it.
The beautiful and dangerous manipulative power of film, here very obviously stripped down to one of its bare truth:
an anesthesic. so powerful it's scary. Even sleep looks like a more lively occupation then this overdose of entertainment.
We could be going under in flames, as long as there is a movie to watch, who cares.
Actually we are going under in flames, and there are movies to watch.
is it possible to escape the anesthesy effect?
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May 23, 2011
May 22, 2011
cycle pas vélo
Une jeune femme pleure désespérément, le front appuyé sur l'épaule de son mari. Sa bouche tremble de cris silencieux qui lui donnent quelque chose d'un bébé qui n'a pas fait sa sieste. Soudain elle s'arrête, s'essuie les yeux. En une seconde sa figure bouffie de sanglots retrouve une couleur normale. Son visage perd toute relation avec sa terrible peine d'il y a un instant. Elle boit une gorgée d'eau. Sourit à son mari - dans leurs mains jointes les alliances se touchent.
Et puis le chagrin la rappelle, le contrôle lui échappe : de nouveau elle enfouit sa tête, de nouveau elle pleure rouge, de nouveau elle aspire à soi toutes les compassions. Après trois minutes de pure détresse, elle s'arrête. S'ensuivent deux minutes de calme, et puis le cycle recommence.
Pauvre planète qui gravite autour d'un soleil de douleur. Son jour et sa nuit.
Et puis le chagrin la rappelle, le contrôle lui échappe : de nouveau elle enfouit sa tête, de nouveau elle pleure rouge, de nouveau elle aspire à soi toutes les compassions. Après trois minutes de pure détresse, elle s'arrête. S'ensuivent deux minutes de calme, et puis le cycle recommence.
Pauvre planète qui gravite autour d'un soleil de douleur. Son jour et sa nuit.
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dans le train,
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"pessoas que aceitam a realidade como ela está não conseguem viver. Ou nos dá a vontade de nos envenenar ou temos de criar qualquer coisa"
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Lídia Jorge,
tesouro
May 18, 2011
mapa do tesouro
há uns anos li um livro.
hoje fui aos sítios em que o livro vive.
fui com sorte e fui com mapa, desenhado por quem escreveu,
lápis azul, letra difícil.
que tesouro!
(submerso tanta chuva)
sonoro e merecido como as vezes uma bofetada
o tesouro :
ver que quem escreve não descreve
óbvio, não?
ver, não perceber.
ver assim com o primeiro olho da manhã
quem escreve escreve
insemina
o tesouro pobre tesouro submerso está em todo o lado
oferecido
oferecido
quem sabe escrever escreve
e eu repentinamente cega tive de reaprender
nos cachos de chuva o que sempre soube quase sempre
ninguém escreve o que está
pelo que quem filma só pode filmar o que está
pode colocar lá o que estará quando filmará
mas só filma o que está.
faço tudo
hoje fui aos sítios em que o livro vive.
fui com sorte e fui com mapa, desenhado por quem escreveu,
lápis azul, letra difícil.
que tesouro!
(submerso tanta chuva)
sonoro e merecido como as vezes uma bofetada
o tesouro :
ver que quem escreve não descreve
óbvio, não?
ver, não perceber.
ver assim com o primeiro olho da manhã
quem escreve escreve
insemina
o tesouro pobre tesouro submerso está em todo o lado
oferecido
oferecido
quem sabe escrever escreve
e eu repentinamente cega tive de reaprender
nos cachos de chuva o que sempre soube quase sempre
ninguém escreve o que está
pelo que quem filma só pode filmar o que está
pode colocar lá o que estará quando filmará
mas só filma o que está.
faço tudo
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May 17, 2011
Global Tourism Network
le seul Ailleurs qui existe réellement est à l'intérieur des autres.
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la poussière de la souris
May 16, 2011
Schengen, ou là où je voulais en venir l'autre jour...
est-ce qu'on arrivera à éviter que la frousse de manquer ne referme les frontières?
cliquez, ça aide à voir
Libellés :
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May 15, 2011
Pequeno almoço no quiosque à sombra dos plátanos. Dois estudantes nortenhos de calções, ressacados da noite passada. O azul do céu aberto na mesa e a conversa gira sobre o defeito da Luisa Ramos, que mal chega à qualquer lado, logo quer ir embora. Já agora, à que praia vamos? Algés, outra vez não.
Uma beldade esguia em trajes de mostrar a preguinha da nalga navega entre as mesas. Eles, os únicos que não lhe ligam pevide. Claro, vem sentar-se à mesa deles.
Não é a Luisa, é a namorada do magrinho.
A conversa muda para assuntos de almoço. O problema do pique-nique. Alguém que ainda está a dormir. A namorada volta a levantar-se, vai tratar das empadas.
Então o magrinho, de chofre, para o amigo :
Já não vou ao casamento, eles estão socialmente atrasados, em relação a nós.
Uma beldade esguia em trajes de mostrar a preguinha da nalga navega entre as mesas. Eles, os únicos que não lhe ligam pevide. Claro, vem sentar-se à mesa deles.
Não é a Luisa, é a namorada do magrinho.
A conversa muda para assuntos de almoço. O problema do pique-nique. Alguém que ainda está a dormir. A namorada volta a levantar-se, vai tratar das empadas.
Então o magrinho, de chofre, para o amigo :
Já não vou ao casamento, eles estão socialmente atrasados, em relação a nós.
May 13, 2011
May 11, 2011
May 10, 2011
May 8, 2011
May 5, 2011
le bon bûcheron
de l'usage des coins pour précipiter l'écroulement des imprenables forteresses.
la petite perte d'un objet - utile, ou aimé - soudain fait fente, s' y engouffre ce qui devait rester au-dehors, et ce qui était un bloc devient absurdement vulnérable, cassable.
la petite perte d'un objet - utile, ou aimé - soudain fait fente, s' y engouffre ce qui devait rester au-dehors, et ce qui était un bloc devient absurdement vulnérable, cassable.
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inveja
Ter crescido numa família onde não se usa a palavra inteligente. Apenas : "este tem mais palavras para falar, aquela é mais rápida para perceber. "
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Lídia Jorge,
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May 4, 2011
May 3, 2011
está combinado, não se fala de dor
..." ele a rir mais, para o lado, a esconder os dentes, o riso dele agudo e grave ao mesmo tempo - "Oh! Que loucura. Assim vai haver dias em que vamos ficar mudos..." Limpava o gargalo amarelo da garrafa para entreter as mãos. "Está combinado, não se fala de dor." Ele acendeu um cigarro. Deitou-o fora.
Naquele momento, o bar podia levantar-se sobre as próprias canas, deslocar-se durante um quarto de hora e voltar ao mesmo lugar com eles lá dentro. Pousar devagar. As aves podiam partir levando no bico a ponta das ondas. O mar poderia ser erguido no ar pelo impulso das aves. Com o fundo do Oceano aberto, gente que estivesse exilada num outro mundo, à espera, poderia vir acolher-se aqui, para fundar uma colónia nova. Gente que se recusasse a falar da dor, isto é, do mal. Isto é, que fosse inocente não por inocência, mas por discernimento. Isto seria possível? "Vamos ver. Nunca falar da dor. Ah! Ah! Como irá ser isso, vamos ver..." - disse ele, divertido, baixando-se para sair pela porta do bar. Fazendo-se leve para não quebrar aquele desenho de tábua erguida na areia da Ria. Levando-a depois, pelo braço, ao longo da ponte de madeira, durante a qual ele teria tido mil oportunidades de a beijar. Mas não, ela pensava que ele guardava os beijos para a Divina. Ele só a puxava, trazia-a contra ele, afastava-a, fazia-a dançar na saia curta, sobre o tapete de tábuas. Ele próprio, desengonçado, bom dançarino. Usava sapatos de ténis brancos, de sola alta, como patins, e dançava em cima das tábuas. Só dançava."
Naquele momento, o bar podia levantar-se sobre as próprias canas, deslocar-se durante um quarto de hora e voltar ao mesmo lugar com eles lá dentro. Pousar devagar. As aves podiam partir levando no bico a ponta das ondas. O mar poderia ser erguido no ar pelo impulso das aves. Com o fundo do Oceano aberto, gente que estivesse exilada num outro mundo, à espera, poderia vir acolher-se aqui, para fundar uma colónia nova. Gente que se recusasse a falar da dor, isto é, do mal. Isto é, que fosse inocente não por inocência, mas por discernimento. Isto seria possível? "Vamos ver. Nunca falar da dor. Ah! Ah! Como irá ser isso, vamos ver..." - disse ele, divertido, baixando-se para sair pela porta do bar. Fazendo-se leve para não quebrar aquele desenho de tábua erguida na areia da Ria. Levando-a depois, pelo braço, ao longo da ponte de madeira, durante a qual ele teria tido mil oportunidades de a beijar. Mas não, ela pensava que ele guardava os beijos para a Divina. Ele só a puxava, trazia-a contra ele, afastava-a, fazia-a dançar na saia curta, sobre o tapete de tábuas. Ele próprio, desengonçado, bom dançarino. Usava sapatos de ténis brancos, de sola alta, como patins, e dançava em cima das tábuas. Só dançava."
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May 1, 2011
futuro, disse o picaroto
chacun, tous, on est comme une espèce de trace du passage que tous ceux qui nous ont précédé. en même temps pointe de pyramide et mer étale, toute seule et tout le monde.
(mais bon, y'a des soirs de plutôt l'un que l'autre. hein, dis? )
(mais bon, y'a des soirs de plutôt l'un que l'autre. hein, dis? )
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ler o mundo
Apr 30, 2011
Zut, la wifi ne fonctionne que dans le lobby. Vieil hôtel, le silence pèse lent, lui non plus ne rajeunit pas. Le cliquetis d'un fax fait sursauter le réceptionniste de nuit, il se rendort tout de suite. Ces énormes fauteuils fleuris personne ne pourra jamais les déplacer.
(j'aimerais un amant à étages. A nombreux étages. et je me fous de l'ascenseur. certains de ses étages correspondraient aux miens, d'autres seraient en plus en moins entre deux mais surtout surtout mystérieux.)
pour le moment je vais me coucher.
demain, c'est rodéo.
demain, c'est rodéo.
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on the power of hands
Apr 28, 2011
Apr 26, 2011
deux zyeux (xzy)
- Mon oeil gauche voit mieux de loin, le droit de près. C'est normal, paraît-il, et avec l'âge, la différence s'accentue. L'oeil dominant pour le détail, le dominé pour la vue d'ensemble... Ça devrait pas être le contraire?
- Si tu cessais une seconde de voir du sens partout, ça reposerait.
- Si tu veux... sauf que je te donne pas deux jours pour te mettre à pleurer d'ennui.
- Si tu cessais une seconde de voir du sens partout, ça reposerait.
- Si tu veux... sauf que je te donne pas deux jours pour te mettre à pleurer d'ennui.
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private joke
Apr 24, 2011
uma canção, olha
apenas apanha o que ninguém se debruçaria para apanhar
destroços bocados coisas jogadas já não galgam nada quebradas nem metades
caras pisadas repisadas invisiveis entaladas
mas hoje
frente a porta vizinha da sua porta entre sarjeta e calçada
esperava deitado um cavalo sardento
um cavalo de cavalgar ainda longe
4 patas potre 4 cascos 4 ferraduras
(a pintura um pouco borrada, só)
ir longe no cavalo sardento
ele que só apanha o que ninguém se debruçaria para apanhar
(mais não merece)
colheu
o cavalo sardento
o cavalo de ir longe
destroços bocados coisas jogadas já não galgam nada quebradas nem metades
caras pisadas repisadas invisiveis entaladas
mas hoje
frente a porta vizinha da sua porta entre sarjeta e calçada
esperava deitado um cavalo sardento
um cavalo de cavalgar ainda longe
4 patas potre 4 cascos 4 ferraduras
(a pintura um pouco borrada, só)
ir longe no cavalo sardento
ele que só apanha o que ninguém se debruçaria para apanhar
(mais não merece)
colheu
o cavalo sardento
o cavalo de ir longe
Apr 23, 2011
un maigrissement
Se débarrasser de plus d'un tiers de soi, et un tiers sans lequel on est mieux. Une qui l'écoute dit : vous devez vous sentir une autre. Gênée de ne pas correspondre aux idées toutes faites, elle rit. Je ne vois pas tellement de différence, dit-elle.
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brain again,
français
Apr 21, 2011
das Kapital, pédagogie
Every time I give someone a drawing, I'm 6 years old again.
Selling as a way to grow up?
Selling as a way to grow up?
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la poussière de la souris
Apr 17, 2011
Apr 4, 2011
nem desenhar dá
(objectos morrem, e nascem outra vez. basta um olhar que gosta, uma mão cuidadosa, um pano-de-tirar-pó)
Por agora estão mortos e mais que mortos e custa virá-los e pegá-los.
Por isto o refúgio da lingua.
Uns, muito poucos, será talvez o meu olhar a trazê-los de volta à vida
(vida de objecto, que não respira)
este, talvez:
Um santo padeiro, com uma braçada de pães.
Vinho e azeitonas trago eu.
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drawing,
trois trembles
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