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Sep 25, 2023

não é o que se esperava

 É um larguinho em declive atrás duma igreja brutalista, onde dorme gente debaixo dos loureiros. Hoje apenas vejo um homem novo, de colete amarelo, que toma pequeno-almoço em pé, o café poisado num dos bancos. 

Há pouco, instalaram lá um abrigo, más é para pombos. Tiro uma fotografia a uma espécie de nave espacial feita come  fósforos queimados colocaca em cima dum caixote de lixo, encaixe perfeito, parece feita de propósito. O homem aproxima-se, pergunta : é da Câmara? Não. E você? Sim, ou não. É empregado duma das empresas que a Junta de Freguesia subcontrata para as limpezas que a Câmara já não assume. Falamos um pouco, é do Punjab, donde saiu há seis anos, estudou turismo em Singapura, trabalhou em vários paises, agora está aqui, mas não é bom. Porquê? O salário? Não, a crise da habitação e as condições de trabalho. As condições de trabalho? Sim. O emprego é limpeza da rua, e não lhe dão nem uma ferramenta. Tem de apanhar todo o lixo à mão. 

Tem de apanhar o lixo à mão.


Sep 1, 2022

 hérissée de balais, un seau à chaque bras, la jeune femme bien droite sur sa trotinette négocie le carrefour sans ralentir.

Jul 8, 2022

canícula


Há duas semanas a vizinha estendeu a roupa

à torreira do sol

uma t-shirt voou, os lençois enrolaram

é nova, a vizinha

Jun 27, 2022

les pauvres restes du glacier du Rhône

 

o homem pede uma sandes de queijo sem manteiga e um galão. Há tanto tempo que não bebo galão, um dia simplesmente deixou de me apetecer. Um dia um dia um dia tive um amigo, Yoshiki, árvore florida, tinha um pouco de vergonha deste nome pouco masculino, tinha inteiro vergonha ele de ser isso, pouco masculino achava ele. Levou me ao mu, ao nada, a tumba do Ozu no cemitério de Kamakura, onde iam os casais nos inícios do namoro, não ao cemitério mas a Kamakura, há o mar e as árvores, floridas por vezes e será melhor para o romance se não o é para o sentimento da masculinidade. Yoshiki um dia deixou de lhe apetecer cinema, que tinha sido a sua vida. A volta dos cinquenta, de repente já não conseguia rever-se nas personagens, o poder de identificação murchou, caiu-lhe como uma muda de cigarra serpente. Um dia ficou outro e a vida era já só a vida dele e não mais também a vida dos tantos a qual tinha tido acesso pelas imagens sucessivas. Era pouca.


Jul 5, 2017

verão na faculdade 2


Trabalho ao lado de uma sala de exames. Estamos na época deles. As minhas janelas dão para o alpendre onde se espera. Tantos vi, nestes dias, tantas, na inquietação de mesmo antes. Umas ainda estudam, outros fazem cara feroz a ver se afugentam o desastre, poucos passam altivos. O cinzeiro tem uso.

Apr 27, 2017

a ajuda que a geometria dá


25 de abril. Um homem raspa as ervas daninhas do pátio. É trabalho de quem dificilmente arranja outro. Arranca resmunga esgravata pragueja. De joelhos. Quando o dia acaba, varre os resíduos. Vê-se então o pátio dividido em triângulos. Socorrer-se de um padrão para não enlouquecer. 

Jan 17, 2017

está tudo dito

O pequeno café-restaurante nepalês no antigo cinema Liz da Almirante Reis chama-se COURAGE AFTERNOON,  nome como valor suficiente para nave espacial prestes a atravessar espaços intersiderais nunca navegados.






...

Nov 13, 2016

linha verde, domingo de manhã

do fundo das míseras três carruagens às quais voltamos depois da breve bonança para acomodar os websumiteiros, oiço o pedinte. Não faz parte dos habituais, usa uma lenga-lenga sem silêncio entre as palavras que o torna difícil de entender. Não é que seja preciso, percebe-se o que ele quer. Tem a minha idade, uma barba grisalha, uma camisa de flanela. Pára à minha frente, olha para o caderno, olha para mim. Sem uma pausa, sem mudar de intonação, começa a explicar  que também desenha, que tem 25 capas desenhadas, que nunca publicou, que não tem dinheiro para publicar. Não pergunto "capas de quê?" Estupidamente, digo: "também não publico." Volta a olhar para mim. Afasta-se.

Sep 21, 2016

eaux-vives

"Et les voitures, on peut les toucher?" demande la petite que sa maman de jour ramène du jardin d'enfants avec trois autres gosses plus petits, chacun sa couleur. " Les voitures il faut pas les toucher, sinon les gens ils se fâchent avec nous." "Ah, bon." La gamine ralentit d'un demi-pas, se place dans la zone précise où la maman continuera à la voir du coin de l'oeil, une tache de couleur, pas besoin de s'inquièter, mais ne verra plus exactement ce qu'elle va faire : tout le long de la rue, d'une main légère, caresser chaque voiture.

Jul 5, 2016

ela disse: cruzei com a indivídua


mais je n'ai pas dessiné le petit garçon qui tendrement gardait un vieux chien inquiet devant le supermarché pendant que son père faisait les courses.

Jun 21, 2016

bleus


Il y a celles qui portent bien le bleu glacier. D'autres ce serait plutôt le bleu de prusse, ou même le bleu piscine. L'autre jour, j'ai eu le chance de tomber exactement sur le bon bleu pour les gentianes. Gentiana pneumoanthe, fleur du souffle, fleur du vent, de la respiration...  Et moi qui ne trouve pas pourquoi elle s'appelle comme ça!

May 6, 2016

sou perspicaz no envelhecer

disse ela. Gostava de conseguir também.

May 4, 2016

Quem vê, vê.

Pátio da universidade, uns alunos filmam uma entrevista, colegas de pé à poucos metros da câmara. Chega um segurança. Pára, olha, e escuta. Diz: Não podem por a câmara aqui. Os míudos : Temos autorização do professor. O segurança desata a rir: Não é isto,  ela aponta é mesmo para às casas de banho. É isto que querem na imagem? Os símbolo dos homenzinhos e os estudantes que entram a pressa e saem devagar?

Mar 4, 2016

sérias

No metro, duas raparigas angolanas comentam o seu primeiro ano de faculdade. Riem-se, unhas perfeitas cascavelam levezinhas em telemóveis de todo o tamanho. Uma, a primorosa, remata : "Isto com Bolonha já se estuda muito pouco. Vamos para o mercado de trabalho uma beca à toa".

Oct 22, 2015

quando tecto é telhado

hoje houve
homens a pintar semáforos depressa uma mulher obesa com 3 cães obesos e castanhos uma rapariga magrinha a pegar numa serra elétrica pela primeira vez
e

Sep 29, 2015

nos palácios


sou das que preferem os jardins.

Sep 10, 2015

l'oeil frémit



Dans une salle d'attente une jeune femme attend.
Elle sent la rose sauvagement.
.



Jul 3, 2015

Vizinhança

É cedo. O homem, de calções, sai para a varanda, onde a roupa está pendurada. Apalpa uma toalha, está seca. Tira as molas com cuidado, pô-las no cesto delas. Depois, com o gesto entre Júlio César e Batman, drapeia a toalha nos ombros magrinhos e vai tomar banho.

Apr 21, 2015

dois cidadãos na loja das laranjeiras.


Até fazem filam para poder esperar,  ri-se uma mulher, a paciência jovem nos braços tesos.